terça-feira, 6 de março de 2012
Cara
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
E se...

Mas se a rua se estreitasse, o par com o ímpar, do verde com o vermelho, nas arquiteturas tortas, diariamente ao grande encontro, nas linhas, em cubos, em euforia imperceptível a olho nu.
E se a lua se aproximasse, iluminando nossos caminhos, estreitando nossos espaços vazios. Mas se você simplesmente atravessasse a rua, mudasse de calçada, no samba feito pra você chegar, nem lua nem rua nem nada me fariam te abandonar.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Vão

A janela entreaberta deixava passar os raios de sol daquele fim de tarde de domingo. E o que se via eram as luzes se dissipando, quando ela passava de lá pra cá dentro do quarto, arrumando as malas pra partir. E saía e voltava e girava e corria e fazia dos raios de sol pisca-piscas dentro do quarto o tempo todo.
Não vá dizer que foi tudo em vão. A janela fechada mente a cor dessa manhã gelada, que não te deixa levantar da cama. Não me avise das tempestades, suas previsões do tempo são falhas, aludem a descontroles remotos, ultrapassados.
Teríamos com fé proferido aquelas mesmas palavras se não fossem essas reviravoltas que a vida dá, transmudando as paisagens, esquecendo dos detalhes. É que a fé também ficou esquecida nos ruídos noturnos, nas novidades pelo caminho, nas divindades questionadas, na fé empoeirada, certidões rasgadas.
Há que se saber que a vida é pisar em falso em enfileiradas caixinhas de surpresa, e que as maiores surpresas da vida podem ser encontradas no vão entre as caixinhas. Em constante teste de paciência, até que se atinja o ponto de equilíbrio. Nem raro nem demasiado, nem extenso nem curto demais.
Na calmaria do pôr do sol no quintal da sua casa, da esperança de dias melhores pelo caminho, nas travessias milimetricamente arquitetadas. Então nossa exatidão a gente deixa de escanteio, reviravoltas em nossos pretextos. Fervoroso dilema da estação.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Muda

Bom mesmo é poder agora rever conceitos há tempos ultrapassados, promover o desapego e aceitar que cada coisa tem seu próprio tempo de vida, seu ponto final. Melhor ainda é entender o momento de aceitação, de dizer adeus para o que não tem mais razão de ser, já que tudo seria bem diferente nas circunstâncias atuais.
Essa descrença virou mania de resposta pronta, tanta vida se transforma a todo instante, virar o disco, viver o novo: a simples forma de pensar mais fácil, sem complicar considerações vulneráveis e traiçoeiras. Estive contando seus passos, seguindo seus rastros, mas do mesmo jeito que aquelas pessoas no tumulto de ontem na rodoviária, as mãos dadas evitando afastarem-se seus corpos na multidão simbolizaram também a nossa despedida. Pelo menos esse foi o meu tempo de entender tudo isso.
E foi mesmo melhor desviar os olhares, ainda que quase passássemos um sobre o outro, seria difícil explicar a ela, e tinha tanta gente por todos os lados, que qualquer cumprimento poderia soar um tanto quanto superficial e desdenhoso, o que me renderia uma chateação desnecessária. Desses conceitos, passei a noite entre questionamentos e detalhes há muito esquecidos, sem razão, como quando você briga com alguém e depois de um tempo você já nem se lembra mais o motivo.
Eu já não me lembro mais de tanta coisa, o tempo foi desbotando essas lembranças, desgastando arrepios e desviando a saudade. Tanta coisa aconteceu nesse entretempo, sem participação, sem presença. Seu caminho ficou na minha contramão, então não há mais grande valia em querer estar junto sem estar.
Eu ainda olhei para trás buscando uma resposta, uma última visão do que agora eu aceito que tenha mesmo ficado para trás. Procurei sem ser vista, mas havia tantas pessoas, final de feriado, gente indo e vindo, despedida e chegada, que eu tive a leve sensação de que o meu trem também partira, agora livre e sossegado, sem destino, na paz que agora eu carrego comigo.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Jabuticabeira

sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O Trem

No campo, lá ao longe se avista o trem de ferro vindo a todo vapor em nossa direção, passando em meio às montanhas, subindo e descendo por todo o vale. E vem chegando, fazendo barulho, soltando fumaça sem parar. As crianças com seus ouvidos atentos procuram o fim da linha, querendo correr atrás de tudo, com seus olhos cheios de vida, abrem os braços feito asas e correm para fora de suas casas idênticas.
No quintal lá de casa tem folha verde depois da chuva que caiu a semana inteira. E o chão continua molhado, tem nuvem cá em baixo, bem perto do telhado. Tem cheiro de primavera no ar. Criança de pés descalços corre atrás do último vagão para sentir o vento vindo verde, de fumaça esparsa, coração acelerado no peito cansado de tanto correr. Tem gente chegando e tem gente indo embora. Tem gente que nem veio e tem gente que veio, mas não devia. Menino, deixa o trem passar. Itinerário traçado, caminhos passados. Não tem como você acompanhar.
Quando você se der conta, a paisagem se transformou e a vida aconteceu sem você perceber, diante de seus olhos sorridentes ao verem o trem chegar. E se o trem já passou, quando voltar já mudou tudo de lugar outra vez.
Enquanto os seus pés se esfregam na terra, fazendo lama, tem felicidade que não vem de trem. Menino pula no rio, dança na chuva, faz bolha de sabão. Tem felicidade que não tem. Travessia pelas suas travessuras, aventuras desertas pelos trilhos enferrujados do trem. Menino achando que é de ferro, energia de mil locomotivas, coração feito de aço. Uma hora você se descarrila, perde o controle, os sentidos, sai da linha. E quando menos esperar, menino, o trem estremece você.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
INSÂNIA

Faça o que vem do coração. A essência está na simplicidade. Esses projetos, rascunhos cobertos de linhas tortas, devaneios saltitantes pelas ruas da imaginação. Entreabertas as suas pastas, entre aspas, entre quatro paredes. Entre e fique. Entre e deixe entrar. Loucura tremendo por dentro, querendo sair, expandir pra fora do peito pra sair da linha, deixar de lado seus incansáveis pretextos.
Não é alucinação, não venha com essa história, que a loucura foge sem você perceber. Não venha dar opinião sem pedido, porque se a loucura foge, você vai ver. Encontrar a loucura todo dia é uma dádiva das forças naturais mais puras. Ah, mas deve ser difícil demais viver na sanidade desses dias o tempo todo.