terça-feira, 6 de março de 2012

Cara


Eu poderia dizer que a culpa talvez seja dos olhos cristalinos em contraste com sua pele branca, unindo-se ao verde das camisetas sedutoras. Eu também poderia dizer que a culpada talvez seja a loucura que nos fez girar na sala sozinhos, nos escondendo entre cabelos lisos, no vestido fazendo piscar a luz de roda em roda. Pode ser que a culpa seja do cheiro bom que você tem ou do seu jeito doce em explicar as coisas.
E eu também poderia falar por horas sobre as inúmeras vontades desastrosas, das imensas cenas de desconcerto entre tímidos sorrisos e mãos dadas a desvendar incertezas difíceis de explicar. Poderia discorrer sobre a beleza e ainda sobre a leveza de tantas conversas divertidas e insanas. Pode ser ainda que a culpa de tudo seja das viagens, da fotografia no lago, dos meteoritos, do brigadeiro ao som de Johnny Cash, do Tommy, do Creedence, da Barra, do churrasco com chuva, das mitocôndrias, da cachoeira, dos cogumelos, dos Mutantes.
Eu poderia falar que a culpa toda foi da lua cheia e da água da chuva escorrendo em nossas pernas, no telhado, ou da claridade da rua evidenciando cada pingo d’água. Poderia falar que a culpa é da sua escrita em caixa alta e de todas as letras duplicadas no seu nome, do South Park, do Esgoto e da Charlote.
Poderia dizer que a culpa mesmo foi do pôr do sol ao som de Megadeth. Talvez também a culpa seja do cheiro bom do seu cabelo no meu travesseiro ou da aflição do equilíbrio do copo americano sobre a garrafa de cerveja. A culpa de tudo pode ser ainda da consultoria de ondas, do mapa desenhado no papel do telefone com a mão esquerda e do seu sorriso a iluminar meu dia inteiro.
Eu poderia também falar sobre os perigos dessas aproximações momentâneas, de todo o tempo que você ocupa a minha mente e de todo o meu vão esforço em impedir que tudo isso aconteça. Poderia dizer que a culpa é da afinidade, mas a afinidade talvez também seja consequência da loucura e a inteligência só um conceito passageiro de desespero e simpatia.
Eu poderia falar que a culpa maior é a atração que sinto pela beleza que existe dentro desse coração receoso, cheio de dúvida. Porque por mais que eu tente, não consigo aceitar que a culpa seja minha, simplesmente por ter me apaixonado. Por falar o que já estava claro, por querer o que eu já sabia que não poderia ter, mas não fazia ideia da dimensão que tudo isso poderia alcançar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

E se...



E se a rua diminuísse na largura, e entre a minha casa e a sua, a gente fosse se encontrar. E quem sabe nossas linhas, tendenciosamente paralelas, não se aproximam ao ponto de se sobreporem, de se enroscarem na doce imagem de te ver passar, de estar sempre no meio do seu caminho.

Mas se a rua se estreitasse, o par com o ímpar, do verde com o vermelho, nas arquiteturas tortas, diariamente ao grande encontro, nas linhas, em cubos, em euforia imperceptível a olho nu.

E se a lua se aproximasse, iluminando nossos caminhos, estreitando nossos espaços vazios. Mas se você simplesmente atravessasse a rua, mudasse de calçada, no samba feito pra você chegar, nem lua nem rua nem nada me fariam te abandonar.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Vão



Ela tinha um jeito tolo de lidar com essa vida mansa, sem nada em exagero. E tinha o cabelo queimado do sol, as mãos pequenas e finas, onde a linha da vida quase que não se via. Tinha as ideias confusas, esquecia-se de tanta coisa e com tamanha facilidade que as pessoas acreditavam que ela fazia de propósito, só para chamar a atenção. De sorriso largo, mas cada dia de um jeito, ainda querendo crer que dias bons é opção ao despertar do sono pela manhã.


A janela entreaberta deixava passar os raios de sol daquele fim de tarde de domingo. E o que se via eram as luzes se dissipando, quando ela passava de lá pra cá dentro do quarto, arrumando as malas pra partir. E saía e voltava e girava e corria e fazia dos raios de sol pisca-piscas dentro do quarto o tempo todo.


Não vá dizer que foi tudo em vão. A janela fechada mente a cor dessa manhã gelada, que não te deixa levantar da cama. Não me avise das tempestades, suas previsões do tempo são falhas, aludem a descontroles remotos, ultrapassados.


Teríamos com fé proferido aquelas mesmas palavras se não fossem essas reviravoltas que a vida dá, transmudando as paisagens, esquecendo dos detalhes. É que a fé também ficou esquecida nos ruídos noturnos, nas novidades pelo caminho, nas divindades questionadas, na fé empoeirada, certidões rasgadas.


Há que se saber que a vida é pisar em falso em enfileiradas caixinhas de surpresa, e que as maiores surpresas da vida podem ser encontradas no vão entre as caixinhas. Em constante teste de paciência, até que se atinja o ponto de equilíbrio. Nem raro nem demasiado, nem extenso nem curto demais.


Na calmaria do pôr do sol no quintal da sua casa, da esperança de dias melhores pelo caminho, nas travessias milimetricamente arquitetadas. Então nossa exatidão a gente deixa de escanteio, reviravoltas em nossos pretextos. Fervoroso dilema da estação.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Muda


Bom mesmo é poder agora rever conceitos há tempos ultrapassados, promover o desapego e aceitar que cada coisa tem seu próprio tempo de vida, seu ponto final. Melhor ainda é entender o momento de aceitação, de dizer adeus para o que não tem mais razão de ser, já que tudo seria bem diferente nas circunstâncias atuais.

Essa descrença virou mania de resposta pronta, tanta vida se transforma a todo instante, virar o disco, viver o novo: a simples forma de pensar mais fácil, sem complicar considerações vulneráveis e traiçoeiras. Estive contando seus passos, seguindo seus rastros, mas do mesmo jeito que aquelas pessoas no tumulto de ontem na rodoviária, as mãos dadas evitando afastarem-se seus corpos na multidão simbolizaram também a nossa despedida. Pelo menos esse foi o meu tempo de entender tudo isso.

E foi mesmo melhor desviar os olhares, ainda que quase passássemos um sobre o outro, seria difícil explicar a ela, e tinha tanta gente por todos os lados, que qualquer cumprimento poderia soar um tanto quanto superficial e desdenhoso, o que me renderia uma chateação desnecessária. Desses conceitos, passei a noite entre questionamentos e detalhes há muito esquecidos, sem razão, como quando você briga com alguém e depois de um tempo você já nem se lembra mais o motivo.

Eu já não me lembro mais de tanta coisa, o tempo foi desbotando essas lembranças, desgastando arrepios e desviando a saudade. Tanta coisa aconteceu nesse entretempo, sem participação, sem presença. Seu caminho ficou na minha contramão, então não há mais grande valia em querer estar junto sem estar.

Eu ainda olhei para trás buscando uma resposta, uma última visão do que agora eu aceito que tenha mesmo ficado para trás. Procurei sem ser vista, mas havia tantas pessoas, final de feriado, gente indo e vindo, despedida e chegada, que eu tive a leve sensação de que o meu trem também partira, agora livre e sossegado, sem destino, na paz que agora eu carrego comigo.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Jabuticabeira



Onde cresciam as suas flores, agora tem cimento, chão firme, tudo cinzento, acinzentado. Onde havia aquela pequena fonte improvisada, com seu pescador satirizado, agora só existe uma rede mais à frente, perto da porta da sala. Não precisei elevar as mãos pelo caminho que você projetou, cheio de flores e galhos contorcidos, para chegar até a porta sem me arranhar, embora agora persistam tantos outros profundos arranhões. E não tem mais aquela brisa boa, as folhas balançando de um lado ao outro, levando o cheiro das rosas até a janela da cozinha, de onde saía o seu melhor café. Mudou tanta coisa, tanta vista, tanta saudade que deixa a gente meio sem norte, intactos, inertes. E vendo aquelas borboletas amarelas traçando boas energias em torno à jabuticabeira, minha flor, tem você por todo lado, basta sentir.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Trem


No campo, lá ao longe se avista o trem de ferro vindo a todo vapor em nossa direção, passando em meio às montanhas, subindo e descendo por todo o vale. E vem chegando, fazendo barulho, soltando fumaça sem parar. As crianças com seus ouvidos atentos procuram o fim da linha, querendo correr atrás de tudo, com seus olhos cheios de vida, abrem os braços feito asas e correm para fora de suas casas idênticas.


No quintal lá de casa tem folha verde depois da chuva que caiu a semana inteira. E o chão continua molhado, tem nuvem cá em baixo, bem perto do telhado. Tem cheiro de primavera no ar. Criança de pés descalços corre atrás do último vagão para sentir o vento vindo verde, de fumaça esparsa, coração acelerado no peito cansado de tanto correr. Tem gente chegando e tem gente indo embora. Tem gente que nem veio e tem gente que veio, mas não devia. Menino, deixa o trem passar. Itinerário traçado, caminhos passados. Não tem como você acompanhar.


Quando você se der conta, a paisagem se transformou e a vida aconteceu sem você perceber, diante de seus olhos sorridentes ao verem o trem chegar. E se o trem já passou, quando voltar já mudou tudo de lugar outra vez.


Enquanto os seus pés se esfregam na terra, fazendo lama, tem felicidade que não vem de trem. Menino pula no rio, dança na chuva, faz bolha de sabão. Tem felicidade que não tem. Travessia pelas suas travessuras, aventuras desertas pelos trilhos enferrujados do trem. Menino achando que é de ferro, energia de mil locomotivas, coração feito de aço. Uma hora você se descarrila, perde o controle, os sentidos, sai da linha. E quando menos esperar, menino, o trem estremece você.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

INSÂNIA


Para conversar sobre projetos, na maior das ironias. Deixar as pastas se abrirem e se juntar aos loucos. A loucura desejada pela mesmice de cada um dos seus dias. Marcas ainda recentes e as ideias vêm e voltam e mudam e (re)voltam. Projetos tantos que já ficaram esquecidos, no fundo da gaveta, no porta-retrato, na agonia diária de frustração e melancolia extrema.

Faça o que vem do coração. A essência está na simplicidade. Esses projetos, rascunhos cobertos de linhas tortas, devaneios saltitantes pelas ruas da imaginação. Entreabertas as suas pastas, entre aspas, entre quatro paredes. Entre e fique. Entre e deixe entrar. Loucura tremendo por dentro, querendo sair, expandir pra fora do peito pra sair da linha, deixar de lado seus incansáveis pretextos.

Aquela história do “nada acontece ao acaso”. Aquela pessoa que te esbarra na rua, de repente era para dizer algo especial no seu dia. Aquele 'bom dia' que você fica ensaiando toda manhã quando sai na rua seria poesia pra loucura chegar. E na varanda de casa, saia e deixe o sol penetrar na sua pele, sinta os raios da luz, que a loucura vem mais à frente. Deite na cama, corra bem longe, abra um sorriso e ria, ria, ria... ria até doer a barriga. A loucura chega sem pressa pra fazer festa, gargalhando sem parar.

Não é alucinação, não venha com essa história, que a loucura foge sem você perceber. Não venha dar opinião sem pedido, porque se a loucura foge, você vai ver. Encontrar a loucura todo dia é uma dádiva das forças naturais mais puras. Ah, mas deve ser difícil demais viver na sanidade desses dias o tempo todo.