sexta-feira, 31 de julho de 2009

Laudo nº 746/09


Casa de vidraças embaçadas. Meia luz evidenciando folhas de papel espalhadas pela mesa. Algumas caídas pelo chão da sala. É que eram muitas perguntas. Perguntas que não devem ser respondidas. As respostas às vezes fazem perder a ousadia, o encanto das questões não sabidas. Ninguém precisa de todas as respostas.

No centro da sala, a menina brinca de boneca. Menina dos olhos, boneca de pano. Passarinhos cantam na janela. Embaçados. Pai e mãe, médicos legistas, fascinados pelo trabalho e, por si, nem tanto. A paixão pela morte os fizeram perder o encanto pela vida. A filha já ouvira centenas de histórias e casos da profissão, todas as noites antes de dormir. Na redação da escola disse que quer ser investigadora da polícia quando crescer. A professora chamou os pais para uma conversa, mas logo entendeu: falavam de gente morta com tanta naturalidade... sorriso no rosto.

Menina e boneca se confundem; ora menina é boneca, ora boneca é menina. Estão agora tão quietas, deitadas no tapete, pálidas. Pequena fresta na janela lateral e, em questão de segundos, papéis voam por todos os lados. Brisa da primavera que vem chegando. Hoje pai e mãe farão hora extra. Cheiro de saudade no ar.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Pesos e Medidas


Reunião de suas liberdades protegidas por sua ordem interna, criada por suas controvérsias, seus absurdos. Seus valores mais íntimos pacificados atrás de grades e muros que há entre nossos corpos. Porque meus pensamentos são livres, meus sentimentos são independentes. Eles procuram relacionar-se com os seus. Mas a sua não-intervenção teima em sempre prevalecer. O seu repúdio a arrepios, amor e saudade. Coração inviolável. Censura manifestações de afeto. Afeta meus sentidos mais puros, meus sentimentos mais leves. Sua imagem em minhas memórias não me pediu consentimento. Suas hipóteses de viver longe daqui e sua frustração ao perceber a irrelevância dessas evasões. Seu sorriso mais raro chegou até mim e permaneceu de forma plena e calma. Sua voz reproduzindo saudades. E quando vem o seu cheiro, meu corpo paira no espaço que você deixou. Preciso me desprender, dispensar, despensar você. Aquecer esquecimentos. Medindo suas vindas, como que para estreitar suas voltas. Estrelar seus olhares. Permita-se. Feche os olhos em desejos e suspiros. Quero você sem ter que pesar nossas distâncias.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Oh, jovem!

Foi quando abracei minha avó e senti seu coração pular de tristeza, no dia do meu aniversário. Todo mundo em volta da mesa, na varanda, dividindo sofrimento. E tudo o que eu queria era dar a ela minhas forças mais sinceras. Eu queria dizer que eu podia entender aquilo tudo, queria procurar trevos no jardim. Mas o silêncio parecia ser o melhor conforto.

Quando eu fiz 25 anos, meu tio morreu. O dia em que eu ouvi dezenas de teorias sobre a morte, do destino do corpo, do espírito, e de crenças controvertidas. Os dias tristes são mais longos. Sentimentos em dias tristes são frágeis demais.
E vendo meu avô ali, passos curtos e apressados, sincronizados com a bengala gasta, procurando um bom piso para se apoiar, embora todo o chão tivesse se aberto sob ele, no dia anterior... Velho de olhos cheios d'água, com sapatos lustrados, mãos trêmulas, aliança larga. "O homem que a dor não educou, será sempre uma criança" (Niccoló Tommaseo). Quando as pessoas se vão, fica muito delas em nós. As lembranças vêm mais fáceis, mais suaves, mais nítidas.

Ainda pude ouvir sua voz naquele dia. Madrugada fria, meia luz. Os olhos azuis já não se via mais, agora descansados sob um véu branco, em meio às flores e ao terço. Não entendo porque as pessoas ficam tão nobres no pensamento dos que ficam. Não vejo lá tanta beleza em enobrecer pessoas que não estão mais aqui. Nobre é a vida. A verdadeira nobreza está na vida. No cheiro da terra molhada, na sensação do vento nos cabelos. A nobreza está no que vivemos, no que sentimos, no que amamos e respiramos. E ninguém devia aprender mais com a morte do que com a vida.

Perdas são tão óbvias, tão certas, transparentes. Não tenho medo de esquecer seu rosto, não tenho medo de esquecer imagens. Quero lembrar-me da sua voz e da risada alta, do abraço e da cerveja gelada. Quero guardar seu sorriso na memória e o presente que você me deu de aniversário, ano passado. Não quero a sua poltrona reclinável, não quero desvendar mistérios seus. Fotografia escondida atrás do espelho, quem diria, outro menino. Quero tudo como está, quero brilho nos olhares. Você não estará mais presente nas manhãs, nem lá perto do rio, ouvindo música sertaneja, abrindo e fechando a geladeira. A ideia de não te ver mais não me causa arrepios. A ideia de não te ver mais me faz desejar paz no seu coração. Paz que tanto lhe faltou. Paz quando chegar a hora de a gente se encontrar de novo.

sábado, 30 de maio de 2009

Vila de Canha

Um amigo que conta contos de meias verdades
Contos pela metade e meias marrons por inteiro
Amigo que canta contos e escreve início de sono
Sonha com livros e diamantes conjugais
Amigo de contrários não contidos
De mãos trêmulas e cartas de canastra conversadas
De cursos inacabados, letras tortas
Condições impostas e camisas quadriculadas
Amigo de conversas casadas, convites de colírios escassos
Amigo que conta segredos
Saramago na cabeceira e sorvete na geladeira
De confissões cabulosas e cigarros de filtro branco
Chico, Bethânia e encontros casuais
Conflitos com bebidas de corantes azuis
Conta na padaria, conselhos desviados
Cabeça raspada, complexos e inconstâncias
De comparações engraçadas, coca-cola na ressaca
Amigo às canhas, amigo que conta contos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Let the sunshine in

O símbolo surgiu no dia 4 de abril de 1958, em Londres, em defesa ao desarmamento nuclear. Criado pelo designer inglês Gerald Holtom, integrante da inteligência durante a Segunda Guerra Mundial. Holtom usou a sinalização de bandeiras de controle de tráfego - por tratar-se de um código universal, bem como para dar a impressão de um homem em desespero - para elaborar o desenho.

O símbolo é formado pela sobreposição das letras "N" e "D" ("N" de Nuclear e "D" de Disarmament), onde “N” é representada por uma pessoa segurando duas bandeiras - uma em cada mão - na posição diagonal; e a letra “D” é formada pelos braços posicionados verticalmente. Da justaposição formou-se o símbolo, que ficou conhecido como “Ban the Bomb” (proíba a bomba), ou “Paz e Amor”. O círculo em volta simboliza o planeta Terra. Tal signo foi adotado pelos hippies americanos que eram contra a guerra nos anos 60.

Há tempos eu não assistia a um filme tão bom quanto o musical "Hair". Viva a Era do Aquário!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Menina Monstro

-Mamãe, o que é imposto de renda?
-Ah, minha filha, é um tanto que o seu pai paga pro governo todo ano.
-Mas... mamãe, por que ele tem que pagar?
-Porque todo mundo paga, é obrigatório. Aliás, já era pra ele ter voltado de Ituiutaba... vai ver o ônibus quebrou de novo...
-O que o papai foi fazer lá?
-Foi entregar o recibo pro seu tio, que é contador - e que graças a Deus não vai cobrar nada do seu pai.
-Por que o papai não foi de carro?
-Porque a gente não tem carro, filha. E mesmo que tivesse, o dinheiro que a gente tem não ia dar pra pagar nem a gasolina. E ia ter que pagar mais imposto ainda.
-Hum... mas eu ouvi no rádio que tem um carro 24 horas por dia. E que pode usar pro bem do povo.
-Quem falou isso, filha?
-Uai, mamãe, não sei quem é... uma mulher de voz calma.
-Ah, filha, isso é complicado...
-Mas, mamãe, se o papai é do povo e paga imposto de renda, então ele pode usar o carro também, não pode?
-Não, só pode usar o carro se for pra interesse de todo mundo. Se for para resolver um problema da cidade, sabe. Só pode se for bom pra maioria. E só a mulher que você falou é que pode usar.
-Por que só ela, mamãe?
-Porque ela manda na mesa. A maioria quis assim.
-Ah, acho que entendi... Mas quem paga a gasolina?
-Então, todo mundo paga, até mesmo o seu pai.
-Mas... mamãe, se o papai mal tem dinheiro pra pagar o imposto de renda, não tem dinheiro pra pagar contador, não tem dinheiro pra comprar carro e, mesmo que tivesse, não ia sobrar pra gasolina, porque é que ele tem que pagar a gasolina do carro dos outros?
-Ah, minha filha, isso nem a menina do Silvio Santos saberia responder...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Curso Preparatório

Foi quando o apresentador perguntou à plateia: "-Vocês estão prontos pra se apaixonar?". Disse exatamente assim, enquanto erguia um dos braços, pouco antes de entrar a atração mais esperada da noite. E o público foi ao delírio. Como que para se apaixonar fosse asssim: simples e previsível. Como se fosse preciso preparação. Contar até três. Respirar fundo.

Não que realmente não seja necessária a preparação, também não sei se é melhor não tê-la, mas é que aquela frase não me soou tão bem. Quem sabe também o que me fez surgir essa ideia seja mesmo a reação que as pessoas tiveram, com os olhares fixos no palco, quando ouviram a frase ecoando dos amplificadores. Expectativa assustadora.

Talvez na verdade seja fácil assim. Apaixonar-se pode não ser tão complicado quanto parece. Interessante é saber o que é, de fato, estar "preparado" para se apaixonar. Se fosse tão óbvio saber o que se sente quando se apaixona, não haveria então porquê se apaixonar. Preparar-se para sentimentos óbvios não me parece muito excitante.